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Prof. Renato Casarin, orientador da pesquisa, e  a cirurgiã dentista Mabelle de Freitas Monteiro Prof. Renato Casarin, orientador da pesquisa, e a cirurgiã dentista Mabelle de Freitas Monteiro

Estudo realizado na FOP sugere que filhos podem herdar de seus pais características associadas à doença periodontal


Prevenção e diagnóstico precoce é imprescindível para a odontologia moderna

Tese de doutorado defendida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) da Unicamp sugere que pais portadores da doença periodontal agressiva pode influenciar na condição periodontal de seus filhos. “É possível verificar que os casos de doença periodontal se acumulam dentro de uma mesma família. Ao avaliarmos o histórico familiar de uma pessoa que tem a doença, podemos observar que o pai desse indivíduo também pode ter tido, assim como o avô, o primo, o filho e, assim sucessivamente.. Ou seja, o fato dos pais terem a doença pode gerar uma maior chance de sua crianças também a desenvolverem em função do acúmulo de fatores de suscetibilidade”, revela a cirurgiã dentista Mabelle de Freitas Monteiro. O estudo teve orientação do professor Renato Corrêa Viana Casarin, da área de Periodontia, , e coorientação da professora Purnima Kumar, da The Ohio State University (OSU) – pesquisadora reconhecida internacionalmente na avaliação de microbioma oral e periodontal.

Doença periodontal afeta a gengiva e o periodonto. O acumulo de placa bacteriana gera uma inflamação gengival e em alguns indivíduos produz perda óssea e a perda dos tecidos que suportam o dente. Quando essa perda de inserção é muito severa, o dente pode amolecer e, quando não tratada, causar a perda dental. A periodontite é uma das doenças mais prevalentes na cavidade oral, enquanto os casos de periodontia agressiva, doença avaliada neste estudo tem uma prevalência menor, em torno de 1% a 6% da população brasileira. Apesar de pouco prevalente na população, a severidade da doença e a pouca idade dos indivíduos afetados reforça a necessidade de controle desta população.

O presente estudo mostrou que crianças com idade entre 6 e 12 anos, ainda em dentição mista, já apresentam alterações nas características clínicas, na microbiotasalivar e da placa bacteriana, assim como no padrão de resposta do inflamatória. Estas alterações estão associadas com a presença da doença periodontal, sugerindo que a surgimento precoce destas características poderiam estar relacionadas a suscetibilidade e gerar um risco maior para essas crianças desenvolverem a doença, explica Mabelle.

Outro achado importante, segundo a pesquisadora, sugere que após o estabelecimento de uma microbiota patogênica, o controle de placa não é suficiente para controlar as alterações identificadas. Existe um componente próprio do paciente,uma questão familiar (provavelmente associada a fatores genéticos e de resposta do hospedeiro) muito relacionada a aquisição e a resiliência destas características Por isso, atividades preventivas que visem somente o acumulo de placa não seriam efetivas para controlar o maior risco desta população. Essa descoberta vai competir internacionalmente no congresso da IADR - maior congresso de odontologia científica do mundo.

“Tentamos duas abordagens terapêuticas diferentes para controlar essas alterações nas crianças. Usamos primeiramente o controle de placa, escovação dental, para avaliar se um melhor padrão de higiene oral e controle da inflamação poderiam controlar as alterações microbiológicas. Mostramos que o regime que aplicamos não foi suficiente. Então, sugerimos o uso do Triclosan (agente químico que está presente em alguns cremes dentais), como uma terapia auxiliar ao controle de placa.. O Triclosan possui propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianos E demonstramos alguns benefícios adicionais com seu uso. Contudo, o benefício sobre a microbiota da placa dental ele não foi eficiente como gostaríamos. Assim, inda precisamos pesquisar diferentes abordagens, diferentes processos que poderiam ser importantes para a prevenção e controle destas condições alteradas”, avalia.

Prevenção – Mabelle faz questão de destacar a importância da prevenção para combater a doença. “Entender o risco familiar e trabalhar com prevenção de diagnóstico precoce é imprescindível para a odontologia moderna”. Agora que já é conhecido os riscos que essas crianças apresentam, da questão familiar, e que só controlar o acumulo de placa não é suficiente, é necessário que essas crianças sejam monitoradas, avaliadas a nível de risco, não só de escovação. Todos os profissionais (pesquisadores, dentistas em geral, odontopediatras) que trabalham com esse público precisam entender isso e fazer um acompanhamento e controle rigoroso, seja de três em 3 meses ou de seis em 6 meses, para evitar que essa doença apareça e, se aparecer, que façam o diagnóstico precoce. “Uma vez uma vez identificada precocemente, a gente reduz a severidade da doença, o tratamento é mais fácil, conseguimos um manejo adequado da doença periodontal”, explica Mabelle.

O importante da pesquisa, na opinião da pesquisadora, não são só os resultados da pesquisa em si, a caracterização da população e dessas alterações, mas é o fato de poder trabalhar com prevenção. “Não queremos tratar sequelas, é obvio que isso faz parte da odontologia, mas queremos tentar prevenir/controlar o aparecimento da doença periodontal. Isso pode trazer um impacto muito grande a nível de saúde pública. Uma vez que conseguimos propor atividades que sejam efetivamente preventivas ou uma terapêutica menos custosa, podemos trazer muitos benefícios para a população. E essa tese em si tem um impacto clínico muito grande para a população estudada porque estamos tentado evitar uma doença severas e com impacto social que é a doença periodontal. Ele tráz uma aplicabilidade clínica direta para uma população em maior risco. Ações e abordagens clínicas”, destaca.

Início - a linha de pesquisa, que teve início quando Mabelle ainda fazia iniciação científica, em 2010, foi proposta pelo professor Casarin. Ele atendia muitas pacientes mulheres que começaram a ter filhos e seria importante avaliar o risco e o impacto disso para a população. Então ele resolveu estudar a relação familiar da doença periodontal. O trabalho visava avaliar os pais doentes e qual seria o impacto nas crianças  antes dos sinais clínicos da doença periodontal. Era avaliar se já havia, desde a infância, alguma alteração que justificasse o aparecimento da doença. Inicialmente, avaliamos alguns marcadores de inflamação e microbiológicos. Sempre pensando em como identificar o que causa da doença e como prevenir essa doença. “Toda ideia da nossa linha de pesquisa trabalha com muito prevenção, em tentar evitar que a doença ocorra. Esse é nosso foco principal. Antes de prevenir, precisamos entender porque que ela ocorre, para conseguirmos agir de uma maneira mais eficiente”, conta a pesquisadora.

A questão de agregação da familiar já era conhecida.  Porém, esse desenho de estudo utilizado pelos pesquisadores foi inovador. “Somos os primeiros a usar esse desenho de estudo de olhar o pai doente e tentar ir atrás da criança sem a doença. A questão familiar já é sugerida a muito tempo, contudo, não sabíamos o que causava essa relação familiar, se é genética, se é resposta inflamatória, se são fatores bacterianos, e nem em qual período as alterações aconteciam. Nosso trabalho vem demostrar que as bactérias são diferentes e a resposta inflamatória também. E que estas alterações acontecem de maneira bem precoce em descendentes de indivíduos afetados”, explica.

Metodologia – A avaliação foi clínica, a nível de diagnóstico e exame periodontal e coleta das amostras de bactéria da placa e de fluído gengival para avaliar inflamação. Participaram do estudo quinze famílias do grupo de periodontia agressiva e 15 famílias periodontalmente saudáveis. Cada uma dessas famílias era composta por um pai e seus filhos. No total foram 30 pais e 36 crianças (dezoito para cada grupo). Depois das coletas das amostras, elas foram congeladas. A avaliação inflamatória foi realizada na FOP e a parte microbiológica avaliada nos Estados Unidos durante o doutorado sanduiche de Mabelle na The Ohio State University (OSU), sob orientação da professora Kumar,

No estudo foi usado uma das mais abrangentes analises de microbiota, que permite a avaliação de mais de 400 bactérias na placa dental. Isso também traz um impacto do trabalho, conseguir a avaliação, de maneira ampla, de uma população que acredita-se ser uma população de risco. Isso é novo, enfatiza.

O próximo passo será tentar manter essa linha de pesquisa como pesquisador colaborador ou pós-doc. “Vamos pesquisar, não só o impacto da alteração oral, mas a nível sistêmico e a questão de resposta inflamatória ligada a esta condição. Como essa alteração microbiológica vai impactar na vida do indivíduo de uma maneira geral. Queremos ampliar essa linha de pesquisa também visando prevenção e caracterização dessa população”, finaliza.

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