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Estudo

Pesquisa conduzida na FOP comprova importância das Unidades de Saúde da Família na redução dos agravos em pacientes com AVC e infarto

Pesquisa desenvolvida para dissertação de mestrado da cirurgiã-dentista Denise Cavalcante, pelo Programa de Mestrado Profissional de Odontologia em Saúde Coletiva, da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), comprovou estatisticamente que houve um resultado significativo de que a estratégia de Saúde da Família (PSF) é um fator de impacto na redução do Acidente Vascular Cerebral (AVC) e Infarto - agravos estudados, que são condições sensíveis à atenção primária em saúde.  O estudo contou com orientação da professora Gláucia Maria Bovi Ambrosano, da área de Bioestatística. A dissertação “Relação entre as variáveis contextuais em indicadores das condições sensíveis à atenção primária, AVC e Infarto”, avaliou os 645 municípios do estado de São Paulo de 1998 a 2013”.

Condições sensíveis à atenção primaria são agravos, doenças que diante de cuidados mínimos, por exemplo se o paciente tiver um bom acompanhamento junto a uma unidade básica de saúde, pode resultar em controle das mesmas sem necessidade de internação. Para isso, existe uma lista de doenças publicadas abordando essas condições pelo Ministério da Saúde, que vai desde uma diarreia, se a criança tem risco de ficar com desidratação, às condições circulatórias, como diabetes e hipertensão. O diabetes, por exemplo, é uma doença crônica que necessita de controle constante. Da mesma forma, as doenças cardiovasculares, onde uma pessoa que tem hipertensão pode desenvolver outros agravos de ordem cardiológica.

O indicador de condições sensíveis à atenção básica já é utilizado nos Estados Unidos (USA), Canadá e alguns países da Europa, que é justamente o que avalia as condições dos serviços de saúde e se está sendo efetivo. “Nosso trabalho visava constatar essas condições sensíveis à atenção básica e nós escolhemos dessas condições o AVC e o infarto, uma vez que são as duas maiores causas de morte do mundo e no Brasil também”, conta Denise.

 Os estudo avaliou todas as cidades do estado de São Paulo. Foi montado um grande banco de dados que mostrava quantas internações cada município apresentava do período de 1998 a 2013: “Apuramos ano a ano as internações pelos agravos estudadas de cada município e os dados de cobertura de atenção básica, ou seja, desde 1998 quantos serviços foram ofertados através da Estratégia Saúde da Família (ESF), para saber o quanto evoluiu”.

A política de atenção básica vem a partir de 1994 e o modelo de atenção pela ESF começa a crescer a partir de 1998. Contudo, o estado de São Paulo começou um pouco atrasado - “Este estudo objetivou conhecer qual a inserção da ESF que cuida da atenção básica, pois a mesma é diferenciada porque conta com o agente comunitário de saúde, que pertence juntamente  à comunidade. Este tem a função de conhecer a situação de saúde da comunidade (territorialização), identificando os casos dos doentes diagnosticadas pelo médico da equipe, contribuindo para melhorar o acesso destas pessoas aos profissionais de saúde, como enfermeira, médico e dentista. Na equipe muitas vezes há um dentista (equipe de saúde bucal) e os auxiliares também, tanto o técnico de enfermagem como o auxiliar do consultório dentário. Nosso trabalho teve o propósito de responder: com essa estrutura, será que a estratégia de Saúde da Família foi capaz de reduzir os impactos desses agravos (AVC e o infarto) nas internações? Ver realmente se esse modelo de cobertura contribui para a diminuição da severidade desses agravos”, explica.

Além disso, a pesquisadora queria medir se as cidades que têm um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano- que avalia em um mesmo indicador, renda, educação e saúde) mais desenvolvidos conseguiriam melhorar os indicadores por si só – “Buscamos avaliar se essas cidades conseguem melhorar os indicadores independentemente do modelo de atenção à saúde utilizado pelo município, ou será que o PIB, ou seja quanto o município tem de recurso se ele por si só já é capaz de melhorar o indicador independente da cobertura de Saúde da Família?”, afirmando ainda que “este estudo é do tipo longitudinal porque acompanhou ano a ano essa variação no tempo. Estatisticamente é bem complexo. Poucos estatísticos são capazes de trabalhar com análises longitudinais, o que por si só é um ponto positivo do estudo. Tivemos acesso aos dados dessas internações por meio do sistema de dados públicos nacionais chamado Sistema de Informações Hospitalares (SIH). Lá está disponível todo o número de internações ao longo do tempo”, revela.

O resultado dessa pesquisa foi exatamente inversamente proporcional, porque quanto maior a cobertura de assistência através do Saúde da Família, menores são os indicadores de AVC e infarto, provando quando esses cuidados da atenção básica são diferenciados junto à  comunidade e à família, mostrando sua efetividade.

Contudo, ao mesmo tempo na discussão foi ressaltada outras políticas de saúde para o mesmo período, o que também pode ter interferido no resultado. Contudo, essas políticas estão inseridas no processo de trabalho do Saúde da Família. Em 1998 foi implantada a Política Nacional de Medicamentos - através dela a população teve acesso a medicamentos gratuitos. Essa informação independente indica que houve uma melhora qualitativa no acesso à medicamento o que contribui para o controle das doenças estudadas.

Em 1999, começou a imunização pela influenza – vacinação da gripe. Existem diversos estudos que comprovam que as doenças cardiovasculares podem piorar a situação do paciente se o mesmo for acometido por uma gripe. Essa imunização contra a influenza é fator protetor contra doenças cardiovasculares.

Outra política que também pode ter contribuído foi a Política Nacional de Assistência Farmacêutica em 2004. Essa política abriu as farmácias populares, ofertando remédios gratuitos ou com valores reduzidos.

Em 2005, houve a Política Nacional do Controle ao Tabaco. Sabendo que o fumo é um fator de risco para quem tem problemas cardiovasculares, possivelmente esta política pode também ter contribuído para a melhora desses indicadores. 

Já, em 2008, os primeiros Núcleos de Apoio a Saúde da Família (NASF) foram implantados . Trata-se de uma equipe multiprofissional, no qual o município contrata até 7 profissionais diferentes, tais como, fisioterapeuta, educador físico, terapeuta educacional, nutricionista, medico, para trabalhar juntamente com essas equipes de Saúde da Família para o cuidado integral dos pacientes.

De 2011 a 2022 há um plano de ações estratégicas lançado pelo Ministério da Saúde para combater doenças crônicas no Brasil. Este plano prevê o combate ao diabetes e outras doenças para tentar atenuar esses agravos.

Portanto, há variáveis que podem ter interferido e que como um todo melhoraram os indicadores de internações por essas causas no Brasil.

Denise ainda frisa as nuances do estado de São Paulo, que é diferenciado em relação ao Brasil, no sentido que ele começou essa estratégia do Saúde da Família muito depois dos demais estados. Ou seja, esses indicadores, teoricamente, poderiam ser melhores há muito mais tempo. “Veja que as regiões, como o Nordeste, essencialmente necessitam das políticas públicas, uma vez que, no geral, o índice econômico é muito inferior. Por conta disso, as pessoas precisam e só dependem dessas políticas públicas. Basicamente a cobertura por planos privados é nula. No estado de São Paulo, a situação é diferente. Há um setor privado muito forte, até porque, as pessoas podem manter esse sistema. Uma coisa acaba levando a outra. O serviço público aqui não é tão desenvolvido como nos outros estados e, mesmo assim, conseguimos redução de indicadores. Temos exemplos de cidades desenvolvidas que começaram o programa Saúde da Família há dois, 3 anos atrás, enquanto essa política é de 1994”, explica. 

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